
É de coragem o que o Governo vai fazer. Ou por outra, é grande a ousadia. Inflexível, o Governo vai avançar com os mega-projectos do Aeroporto de Alcochete e do Comboio de Alta Velocidade (TGV), num total de 11,4 mil milhões de Euros, cujo investimento se espera vir a ser retornado daqui a, aproximadamente, 30 anos… Não estivéssemos nós a passar por um dos períodos de maior instabilidade económico-financeira da nossa história, eu diria que a iniciativa de Sócrates & Companhia era de capital importância para o País.
O País…
“É a crise, é a crise…” diz o povo olhando para o fundo da carteira, porque, indubitavelmente, é o povo que sente a agudeza de uma crise de marcas tão profundas, e não os governantes que, do alto da sua cátedra, declaram que o País precisa destas grandes obras para se equiparar com os outros países da União Europeia.
O País…
Na minha óptica, todavia, um novo aeroporto é imprescindível para Portugal pois, a capacidade do Aeroporto da Portela exceder-se-á muito em breve, comprometendo seriamente as nossas relações com o exterior. Quer isto dizer que os fluxos de pessoas, mercadorias e capitais entre Portugal e o Resto do mundo poderão diminuir, prejudicando a competitividade e a capacidade de resposta da nossa economia. Debate-se muito sobre os impactes ambientais que uma obra desta envergadura implica mas, verdadeiramente, em projectos desta natureza não há soluções óptimas ou mesmo boas, apenas menos más. Se Alcochete é a localização menos má, então que se faça lá o maior Aeroporto do País.
O País…
Contudo, perante a falta de liquidez dos mercados financeiros e as flutuações dos preços dos combustíveis, todos estes factores ameaçando a recessão das economias, é incomportável para um país como Portugal levar a cabo estas grandes obras. A meu ver, a implementação do TGV deveria ser adiada. O TGV iria ligar Lisboa e Madrid, Lisboa-Porto, Porto-Vigo e algumas cidades do Alentejo à Capital. Diz o nosso Primeiro-Ministro que, assim, vai ser possível aproximar regiões como o Alentejo e impulsionar a competitividade das mesmas. Mas, esquece-se o Sr. Primeiro-ministro que o poder de compra da população alentejana é inferior à média nacional, para além de que é a região que regista maior índice de envelhecimento e menos deslocações diárias. As viagens de TGV custam o dobro ou o triplo de uma viagem de Expresso ou de comboio e, no caso da ligação Lisboa-Madrid pode-se optar pelo avião que, mesmo para uma média de distância, é hoje muito mais competitivo em termos de oferta de voos. Serão, então, carruagens desertas; um verdadeiro comboio-fantasma…
Posto isto, os 7,1 mil milhões de € seriam muito melhor empregues na criação de um fundo crítico que, em curtos períodos de crise, fomentaria o investimento público, contribuiria para baixar a carga fiscal sobre as empresas e injectaria capital na Banca para garantir as poupanças dos agentes económicos.
Mas, afinal, que País vai ser este daqui a 30 anos? Desemprego, falta de poder de compra, pobreza, agravamento fiscal, falta de competitividade e recessão são apenas algumas ideias que me vêm à cabeça quando penso no futuro do País.
Afinal, valha-nos o TGV para ficarmos bem na fotografia…
Texto de: Robalão